terça-feira, 20 de setembro de 2011

Testamento

O que não tenho e desejo
É o que mais me enriquece
Tive uns dinheiros – perdi-os
Tive amores – esqueci-os
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei esta prece
Vi terras da minha terra
Por outras terras andei
Mas o que me ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.
Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu
Um filho! ... não foi de jeito ...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.
Criou-me desde menino, meu pai
Foi-se um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!
Não faço versos de guerra
Não faço porque não sei
Mas num torpedo suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei.

Manuel Bandeira

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